Eventualmente ouço das pessoas: Comic Sans é uma fonte que funciona (notem bem o termo. Funcionar é o termo mais empregado por designers no lugar de combina, vai bem, não destoa. E nem precisa ser máquina pra funcionar.) bem dentro do mundo em que devia ser empregada, ao menos segundo o propósito de sua criação. O universo em questão é o dos quadrinhos. Cá entre você e eu, acho que Comic Sans não funciona nem mais nos quadrinhos. Uma fonte que é tão mal utilizada termina por criar nas pessoas uma espécie de barreira de aceitação. Ao aparecer em algum lugar, logo remete a trabalho mal feito, a cópia desumanizada de anúncio simples, à… Libertinagem visual, ao mau gosto. Eu nem acho que há um único bom gosto, quando se trata de aspecto visual, mas vários maus gostos moldados pela sociedade em que vivemos são aparentes. Esse é um deles, um que salta aos olhos. Assim como o uso de Times New Roman em vídeos. Mas esse é assunto pra outro dia.


As dúvidas

18Abr09

Que o jornalismo de hoje em dia é amplamente superficial, todos já sabíamos. O que não se esperava é que em poucos anos, com o surgimento da web, houvesse um salto tão grande com vias à nulidade absoluta. Nestes tempos, é comum ler uma notícia inteira de duas páginas e estar tão informado sobre o tema quanto antes de ler, tendo como base informativa somente o título da matéria. É lugar comum que percamos fatias enormes de um tempo a cada dia mais precioso lendo o que por fim não vai agregar conhecimento nenhum.

Hão ainda de defender o jornalismo, como é feito em demasia por aí, com os mesmos argumentos de sempre. Um texto jornalístico não pode ser um tratado científico sobre o assunto em questão. Não pode ser difícil de ser lido, não pode enfezar, deve ter tato. A grande questão sobre o argumento como-escrever sempre passou por isso, desde que os jornais impressos foram criados.  Um jornal que noticia uma grande descoberta científica precisa adequar o anúncio da descoberta à forma que o público do jornal espera encontrar. Não se pode dar uma aula, não se pode fazer intervenções em notas de rodapé enormes e monótonas, e em suma hoje não se pode também explicar. Explicar é feio. Demonstra que você tem alguma preocupação com o entendimento da informação, que você quer que quem lê fique sabendo, na máxima extensão possível dados seus próprios conhecimentos, do que trata o artigo. Preocupar-se com a compreensão da informação é hoje motivo de escárnio. Em vez disso, a evolução levou os jornais da web ao outro lado da cidade: informação quase nenhuma. Assim não é preciso explicar. Assim, com os termos usuais do dia-a-dia pode-se obter o mesmo efeito de explicação. Basta citar um dia, um horário, um acontecimento. Explica-se os acontecimentos pelos próprios acontecimentos que são: se aconteceram, é porque deviam mesmo acontecer. O jornal está sempre pronto a noticiar algo que devia mesmo surgir. Era esperado. Vivemos também a era em que tudo é esperado: não há mais a necessidade de previsões. Se você deseja esclarecer alguma dúvida, deve recorrer ao dicionário. A uma boa enciclopédia (rasa, como são mesmo as webenciclopédias). Jornais noticiam.

E podemos dizer, à sombra dos jornais de hoje, que noticiar é basicamente tomar uma frase que exprime a totalidade da notícia e transformá-la em um grande texto organizado em seções. Há a primeira parte, um parágrafo enorme cheio de suspense sobre a informação que virá a seguir. Você deseja ver, você precisa ouvir, você não vai acreditar; é curioso, bizarro, incomum, estranho, inacreditável. Em seguida, vem a parte que contém a informação, dividida em várias pequenas partes para parecer enorme. Cada pequena partezinha conta um pedaço da história, mostra a opinião de um especialista sobre o tema (rasa como a pergunta que o fizeram), cita o testemunho de alguém, um transeunte qualquer, inidentificável, ou quem sabe, um amigo do jornalista. Depoisa da enxurrada das pequenas partes, há a conclusão. Como nos ensinam todos no colégio. Arrebatadora. Uma opinião mais alfinetável, uma declaração pomposa, qualquer coisa que dê margem a dúvidas. Dúvidas. No final de uma notícia o que você esperava? Que suscitassem mais dúvidas?

Bem, você precisa ler mais alguma coisa daquele jornal.


Uma coisa que me irrita sobremodo é o clássico pão com patê. Deixando o patê pra depois, a consideração inicial: o que são essas pessoas que passam uma camada capilar de patê sobre o pão? Ainda olham torto quando você, com toda a sua vontade, vem e se serve generosamente. Generoso não é pra si, convencionou-se nos dias d’hoje, generoso é pros outros. E ainda é preciso se explicar! Olha, eu adoro patê. Não vejo o menor sentido em comer pão quase puro, se era assim, comesse só o pão. E eu mesmo não comeria só o pão porque esse pão é ruim. Se fosse comer pão puro, compraria um pão gostoso. Então a coisa aqui é o patê, e se é o patê, por que diabos vou economizar nele? É como comer um purê de batatas e servir-se apenas de uma colher de chá do cujo-dito.

E o patê. Ainda mais essas porcarias que se vendem hoje em dia como patês. Massarocas de qualquer-coisa com sabor artificial do ingrediente principal? Na-não. Se era pra fazer uma pasta de farinha, avisasse antes: prefiro os pães. E os gostosos.


Definitivamente já adentramos a era do absurdo. O tempo em que o que importa mesmo é receber de vez em quando notícias catastróficas, absurdas, revoltantes, impossíveis em si mesmas, cretinas, políticas. Segue-se com a vida no momento seguinte, mas durante uma revelação dessas somos tomados de espanto: não acreditamos que é possível, não acreditamos que as instituições tornaram isso possível, não acreditamos que… O mundo nos tenha entregue isso tão aqui do lado. O pensamento seguinte é de que estamos vulneráveis. Sujeitos a isso e àquilo, e é como se fôssemos a notícia absurda de amanhã. Tá na listinha. O terceiro pensamento, e esse o mais perigoso, é o de que isso acontece, o mundo é mesmo cão, não tem ordem possível e a corrupção gera todo tipo de abóbora. A partir desse pensamento, a vida reencontra as forças pra seguir normalmente. Ehr. Normalmente? Minha licença poética deve estar vencida.


Alguém havia perguntado, certa vez, como é que se pode manter uma idéia por bastante tempo. Penso que receava ser preciso toda sorte de cuidados protecionistas. Mas as idéias não duram muito! Pois que se você for olhar direitinho, duram sim. Algumas duram tanto que mesmo quando parece já terem ido, estão lá. Os embates de idéias não são aquelas lutas medievais demolidoras que degolam com espadas sangrentas, as idéias confrontam-se apenas no campo ad hominem, que efetivamente nem está muito na região delas. A coisa é que elas são melhores do que as outras só porque alguém quer. E quando dois discutem (vá ver, um não quer), por mais intelecto que ambos acreditem investir na retórica, vence o desatino, pois um se dá conta de que algo pode ser mais interessante e o outro sorri. Não vá dizer que vencem os sorrisos, porque essa não é a área em que eles vencem mesmo.


Dizia-me alguém dessas interessantes que as pessoas classificam em dois tipos. Há as que ouvem por aí como é que as pessoas são e as que inventam como é que devem ser. Enquanto umas estão sempre à procura de novidades, tentando descobrir em que buracos da imaginação já se viajou e buscando trazer pra si um pouco dessa crista de espírito, outras escrevem e falam, e não seria demais afirmar que vez por outra mandam.

Os seres interessantes em geral têm esse mesmo problema. Deixam você pensando em círculos por vários dias. Colocam você em corrida com a tartaruga de Aquiles até que você compreenda que não é preciso ultrapassar a tartaruga, e muito menos correr. Você sempre pode fazer como a lebre da tartaruga e dormir.


O que querem

16Mar08

Um livro é aberto, dois olhos são desviados e toda a luminosidade é em vão. A atenção é absorvida por qualquer outro objeto disposto por ali. Os olhos não querem saber dos livros, e se fosse dado aos livros o poder de decidir quem lhes dá atenção, iriam clamar pelas crianças, muitas crianças, com seus pequenos potes de tintas coloridas e pincéis errôneos. Iriam querer traços e borrões, arte contemporânea sobre seus tipos impressos, e não suspeitaria ninguém de que o motivo, se também lhes fosse perguntado, seria desses que nos deixam céticos, impacientes, deselegantemente mal-educados elevando o tom de voz e demonstrando por meios imbecis a superioridade que julgamos ali e sempre ter, seria um motivo simpático. Querem criatividade desenfreada, querem autenticidade, porque no fundo, e bem lá no fundo, estão bastante ressentidos com o fato de serem uma mera cópia.


Há uma música do Pluramon que volta e meia me volta em meia à cabeça. “Time for a Lie”, do álbum “Dreams Top Rock”. A melodia é etérea, como num sonho com alguma distorção, e há a constante repetição de “It’s a beautiful time for a lie”, com algumas variações. Desde que a ouvi pela primeira vez, peguei-me pensando se aquela hora era mesmo um ótimo momento pra uma mentira, e em geral a conclusão é assustadora. Todo e qualquer momento é ótimo pra uma boa mentira bem-contada. Seja pra si mesmo, pros outros, pra ninguém. Mentir é, além de tudo, uma arte, e a despeito de tudo o que já foi escrito sobre a mentira, ela se encaixa em qualquer situação com precisão, como se tivesse todas as formas possíveis a todo momento. Resta saber então como identificar uma boa mentira. Vá ver, é impossível. Mente-se tanto até pra si mesmo que pegar uma delas no ar talvez seja mesmo uma questão de sorte.

Ouvi certa vez que é impossível enganar a si mesmo. Bem, eu discordo. Em geral, quem formula esta opinião está certo de que as pessoas são senhoras de si, quando em geral não são. Engana-se a si mesmo a todo momento, com as desculpas mais estapafúrdias, e acreditamos nelas não porque somos induzidos, mas porque somos coniventes com a mentira. Sendo nós mesmos os mentirosos, podemos mentir e aceitar a mentira, forçar que nelas acreditemos, às vezes até brigar pela sua realização no mundo. Ser juiz de si mesmo requer uma enorme dose de conhecimento acerca de si, e ouso assertar que a vasta maioria de nós está muito longe de tanta auto-compreensão.


Eu não sei, senhor José Padilha, eu não sei. Talvez seja tão difícil fazer cinema neste país por causa de alguns outros detalhes. Talvez porque os nossos mais queridos cineastas esquecem constantemente de que é difícil manter qualquer atividade artística por aqui. Talvez porque os produtores prefiram se aliar às redes de distribuição que em geral lidam com cinema americano e pipóquico e que terminam com preços tão altos ao consumidor que segregam camadas inteiras da nossa população. Talvez porque cinema inteligente seja mesmo algo incomum no Brasil e bem, exceções são tratadas como exceções. Quem sabe talvez porque não se está acostumado a filmes que façam pensar? Pode ser também que nosso amado e querido povo odeie cineastas. Esta é uma opção bem plausível; aposto como escorraçaria-se qualquer cineasta de qualquer praça por aí e por aqui. Quem sabe também, com um governo esquizofrênico como esse que mantemos, se precisamos mesmo de cineastas.


Combinações

06Jan08

Cacau e café combinam tão bem no sentido mais rude da palavra torrado. Ainda mais quando o que você tem em mãos é um chocolate colombiano da Nacional de Chocolates com 70% de sólidos de cacau e 2% de sólidos de café. O que não soa tão legítimo é que, com todo o nosso potencial para os chocolates, só sejamos capazes de produzir estas porcarias  estéreis que se pode ver no supermercado.


Olha, uma coisa é a diversidade cultural ao redor do mundo. Outra coisa é o que fazer uma vez que você tem conhecimento dela. Na vida de uma porção de gente é chegado um certo momento em que as fotos interessantes do redor do mundo não bastam mais. Elas não causam mais o mesmo efeito (nos outros e em si) e são apenas o fruto da expressão de um momento de procura. Então você já procurou e esteve onde quis; o que fazer agora? É preciso encontrar um lugar e viver; talvez isso não seja preciso mas alguma identidade; possivelmente o que é preciso é esquecer o viajar como forma de expressão e busca de conhecimento e encontrar um significado pra sua própria existência. De uma forma ou de outra, nem as legendas das fotos bastarão mais. A partir daí você estará sozinho, entregue a si próprio, mesmo que você seja um casal. Cá entre eu e você, acho que é bem nesse ponto que patético passa a fazer algum sentido.


O papel rosa

05Dez07

Não sei por que ainda fabricam papel rosa. Parece que é uma dessas coisas que não pode ser esquecida, se for deixada pra trás leva consigo toda uma tradição no fabrico de papéis ruins. O papel rosa é vice-campeão, na lista aparece logo atrás do papel de pão. Vem sempre naqueles blocos de formulários para qualquer tipo de assunto burocrático que exija uma segunda ou terceira via; em tese devia haver um certo código dizendo quem é o dono da via rosa. Mas não há, em alguns lugares a via rosa é sua, noutros é de quem pediu o formulário, e em mais outros não é de ninguém: invariavelmente será amassado e jogado fora na primeira oportunidade. Mas eu realmente não sei o que há com os fabricantes de papel, tantas cores mais agradáveis por aí. Amarelo clarinho, cinza-reciclado. Papel rosa sempre me parece que vou sujá-lo a qualquer momento de gordura de salaminho, provocando aquelas manchas translúcidas e irremediavelmente incuráveis. Ainda bem que a indústria editorial brasileira descobriu o papel-pólen (e ainda bem mal que tenha descoberto o pinus junto com isso) e estamos livres de livros róseos com tipografia de gutemberg toda borrada. O revés dessa história é nos quererem empurrar livros de cem reais.

Acho que vou abrir uma gráfica.


No afã de sermos sempre ecologicamente corretos, é preciso repensar papéis. Você escreve num deles inteirinho e não quer esse escrito nesse papel. O que fazer? Puxa-se rapidamente o papel, mantém-se o escrito suspenso no ar e ainda bem rápido coloca-se outro papel embaixo. É só esperar três milésimos de segundo (o tempo que as letras demoram pra cair como nos desenhos animados) e pronto: o texto está no papel novo.

Então troquei o papel dos papéis. Bem-vindos acá.